sexta-feira, 2 outubro , 2026

Dona Marisa e os ódios em circulação

Certas coisas, por exigência de etiqueta social, são da esfera privada. Há passagens da vida que estão à parte do escrutínio público. Se não respeito um mínimo privado no outro, exponho a mim mesmo à devassa geral.
Não há civilização sem regras de conduta socialmente imperativas em momentos circunspectos para a existência. É do interesse público que dados acontecimentos particulares sejam considerados com cerimônia.
Claro, se a importância social das pessoas envolvidas em um episódio é destacada, as atitudes das gentes amontoadas cambam para o desvario. A morte de Dona Marisa liberou rancores reprimidos. Pôs ódios em circulação.
E não é coisa de uma banda só. Quem não tem interesse de “torcida” ou não é sicário de um ou outro desses grupos que estão ladrando, percebe que o desrespeito bravateiro vem de parte a parte e não é nada novo.
A coisa é política. Dona Marisa resume-se à condição de falecida esposa de Lula. A animosidade é a ele; a ele se dirige uma agressividade intolerante que lhe atropela até mesmo as exéquias da mulher morta.
Ao mesmo tempo, seus simpatizantes desrespeitam a morta, fazendo-a bandeira de uma alegada “perseguição” promovida pelas “classes dominantes”. Um mantra exculpador que o petismo larápio vem repetindo.
A morte de Dona Marisa decorreu de lesão cerebral da qual tinha ciência e cujo tratamento postergou. O mais de bobagens que se diga, vindo dos coxinhas é insulto à privacidade, vindo dos mortadelas é ofensa à inteligência.
Felizmente, os “acusados” pela ferocidade hater não a repetem: “O ex-presidente Lula disse ao presidente Temer que lamenta não ter conversado mais com seu antecessor no Planalto, Fernando Henrique Cardoso.
Temer fez um visita a Lula para prestar condolências diante da morte iminente da mulher do petista, Marisa Letícia. Lula agradeceu o gesto de Temer e disse que nunca mistura relação pessoal com divergência política.
Temer sorriu. Eles não haviam se encontrado desde que o peemedebista assumiu a Presidência. Visivelmente comovido com a iminência da morte de sua mulher, Lula elogiou a atitude de FHC, que o visitara antes.
Segundo o senador Cássio Cunha Lima (PSDB), Lula afirmou que a visita de FHC é ‘um exemplo pedagógico para os jovens’. O petista insistiu que as divergências políticas não podem impedir o diálogo”.
Infelizmente, mortadelas esganiçavam-se na porta do hospital. Depois da conversa, segue a matéria, “Lula foi informado que Temer fora chamado de “assassino” por um grupo de militantes petistas na chegada ao hospital.
Ele reclamou com amigos e disse que não gostaria de transformar o momento em um ‘espetáculo de intolerância’” (FSP, 04fev17, editado). Não teve nem terá sucesso. Não obstante sua vontade, seguem as baixarias.
À sua vez, antes dos ladridos rueiros, os mesmos modos, agora na versão coxinha, advindos então de médicos, canalhamente foram cometidos. É inconcebível o que disseram, o que fizeram. Foi uma desumanidade.
Mas cabe lembrar: Lula é o alvo circunstancial dos coxinhas. Durante a campanha presidencial Aécio Neves, caluniado sem limites, não foi menos vítima dos mortadelas. Dona Marisa, morta, é maltratada por todas as súcias.
Está um desatino. Um procurador de Justiça brinda-lhe o passamento. Ao juiz Moro se insulta, como se o magistrado fosse responsabilizável por presidir um processo que envolve partidários do viúvo e, já, de sua oposição.
O Brasil, com razão, vive injuriado com seus políticos. Formaram-se turmas de altercação. Numa “guerra de posição” midiática, partidos e pessoas estão às turras.
Isso até que é bom, atiça o interesse por política. Contudo, desavenças têm limites: “por mais profundas que sejam, discordâncias não podem atropelar respeito, educação e convivência social, aspectos desconsiderados durante a agonia da ex-primeira-dama.
A turma do ódio prestou um desserviço ao país em suas manifestações públicas nesse caso, que só não foi mais deplorável pela maturidade e sensatez demonstrada no gesto de líderes políticos mais experientes”.
Cito “Acima das Diferenças” (DC, 04fev17). Atuamos abaixo delas. À esquerda e à direita um miasma fascista ronda a nação. Nos insultamos. Não nos entendemos. A coexistência democrática carece de interlocução.

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